Uma escalada de violência, com ao menos 11 pessoas assassinadas em cinco episódios diferentes. Assim foram as últimas duas semanas em Salvador e na Região Metropolitana (RMS). Os crimes, ocorridos em sequência, chamaram a atenção não apenas pela quantidade de mortos, mas pelo perfil. Todos foram com mortes múltiplas, ou seja, ações criminosas que atingiram mais de uma vítima ao mesmo tempo.
A série de mortes começou na madrugada de domingo, 29. Dois jovens foram assassinados durante uma festa do tipo paredão no bairro Alto do Cabrito. Na terça-feira, 2, outros dois homens foram mortos em Dias D’Ávila, Região Metropolitana de Salvador (RMS). Na mesma noite, a situação se agravou ainda mais com um triplo homicídio na Massaranduba, que vitimou, entre outros, um cantor de pagode local.
Já na quarta-feira, 3, um casal foi assassinado dentro de casa na localidade do Marotinho, no bairro São Caetano, em Salvador. E, o mais recente, no domingo, 6, quando dois homens também foram mortos no bairro do Uruguai, região da Cidade Baixa da capital baiana.
Motivação dos crimes
Os casos, que até o momento estão sendo investigados pela polícia e não tiveram um desfecho, podem ser motivados por diversos fatores e podem indicar uma mudança no perfil da violência local, ocasionando o chamado “efeito contágio”, segundo explica o professor da UFBA, pesquisador em segurança pública e execução penal, Misael França.
A juventude negra periférica é a principal vítima e isso só reforça um problema estrutural que já conhecemos.
“Salvador tem se destacado como uma das cidades mais violentas do país. Essa violência tem endereço certo: as periferias das grandes cidades, onde vivem, lamentavelmente, jovens negros. Na maioria dos casos, a juventude negra periférica é a principal vítima e isso só reforça um problema estrutural que já conhecemos. A sequência de homicídios múltiplos, apesar de assustadora, não é novidade. Elas costumam estar geralmente ligadas a disputas pelo domínio do crime organizado nessas localidades, mas os motivos podem ser diversos”, diz Misael em entrevista ao Portal A TARDE.

Efeito contágio
A repetição de crimes violentos, especialmente quando divulgados em sequência, também pode ter um efeito perigoso, segundo o especialista. Misael explica que ações continuadas e amplamente divulgadas podem servir de inspiração ou modelo para outros crimes, fenômeno conhecido como “efeito contágio”.
A figura do executor armado que pode matar várias pessoas em uma única ação passa a ser vista como símbolo de coragem.
“Psicanalistas explicam que existe algo chamado ‘efeito contágio’. Quando se divulga esse tipo de crime, há o risco de, em vez de gerar repulsa, eles podem causar uma espécie de estímulo, principalmente entre jovens e adolescentes que convivem diariamente com a violência. Para alguns, a figura do executor armado que pode matar várias pessoas em uma única ação passa a ser vista como símbolo de coragem ou até como um herói”.
Ainda de acordo com o professor da UFBA, além do medo, a ostentação rápida de patrimônio — como carros, ouro e armas — também funciona como elemento de atração para parte dessa juventude.
“Analisando mais profundamente, em alguns casos, muitos desses indivíduos acabam tendo uma ascensão patrimonial repentina, diferente do que se esperaria pelas vias normais. Crianças e adolescentes que presenciam isso veem naquela figura alguém ‘bem-sucedido’, que conquista respeito e medo das pessoas ao redor, mesmo que pelo caminho da violência”, completa.
Possíveis motivações
Os casos desta semana ainda estão sendo investigados pela Polícia Civil e, até o momento, ninguém foi preso. De forma geral, crimes dessa natureza podem ser motivados por vários fatores, entre eles:
- Guerra entre facções
- Dívidas
- Acerto de contas
- Vingança
“Em localidade mais vulneráveis o Estado é ausente e muitos indivíduos acabam agindo por conta própria ou cumprindo ordens, como uma forma de “justiça pelas próprias mãos”. No Código Penal, existe até a tipificação desse tipo de conduta, que é o ‘exercício arbitrário das próprias razões’. Isso mostra uma descrença total nas instituições formais de controle, como a polícia, Ministério Público, o Judiciário”.
Ainda de acordo com Misael França, esses crimes costumam ser planejados e não são cometidos por um único executor. Normalmente, há uma cadeia de pessoas envolvidas — desde quem ordena até quem empresta armas ou auxilia na fuga.
“Geralmente são crimes pré-ordenados. Há estudo prévio da rotina da vítima, escolha do melhor momento, local. Quem puxa o gatilho raramente age sozinho. E todos respondem pelo crime, na medida da sua participação”, explica.
Estado ausente?
Misael defende que existe uma falha por parte no estado no enfrentamento da violência. Segundo o pesquisador, esse combate não deve ser apenas de forma repressiva, mas sim feito de forma integrada, envolvendo não só investimento em segurança pública, mas também:
- educação;
- políticas de combate à pobreza;
- saúde;
- esporte e lazer.
“A violência é um problema multifatorial, não pode ser tratada apenas como caso de polícia. Ela deve atuar numa perspectiva de prevenção do crime, não só repressão. Quando chega a repressão, significa que as outras políticas falharam. É um problema multifatorial, que envolve outros setores importantes”.
O especialista frisa ainda que não é responsabilidade só do governo do estado. “Os municípios também têm um papel importante, inclusive com as guardas civis municipais. Enfrentar a violência precisa de articulação entre todas essas áreas. Mas o que acontece é que o Estado entra de forma tardia e muitas vezes só com ações repressivas. Esse confronto entre facções acaba agravando ainda mais a violência nesses locais e atingindo, principalmente, a juventude negra periférica”.
O que diz a SSP?
“A Secretaria da Segurança Pública ressalta que determinou às Polícias Militar e Civil, através do Comando de Policiamento Regional (CPR) e da Delegacia de Homicídios (DH) Baía de Todos os Santos (BTS), o reforço das ações conjuntas de combate ao crime organizado, na região do Subúrbio Ferroviário de Salvador. Aumento das abordagens, dos mapeamentos de inteligência e também das medidas de repressão qualificada serão promovidos com o objetivo de identificar e prender os autores dos crimes contra a vida registrados naquela região. A SSP destaca também que informações sobre os ataques podem ser repassadas, com total sigilo, através do telefone 181 (Disque Denúncia). A ligação é gratuita e o serviço funciona 24h”.
