A Justiça determinou o afastamento temporário de quatro policiais militares após denúncia de agressões físicas e insultos homofóbicos durante o Carnaval de Salvador. As vítimas são um soldado da Polícia Militar, que estava de folga, o marido dele e um amigo do casal, que também é PM.
O caso aconteceu na noite de sábado (14), na região do Morro do Gato, no circuito Dodô (Barra-Ondina). Durante a ocorrência, o soldado que denunciou ter sido agredido acabou preso sob acusação de desrespeitar um superior, crime previsto no artigo 160 do Código Penal Militar. Ele foi liberado na terça-feira (17).
A ocorrência é investigada pela 7ª Delegacia Territorial (DT), no bairro do Rio Vermelho, e pela Corregedoria da Polícia Militar. Em entrevista à TV Bahia, o professor João Cruz, marido do policial, relatou que a confusão começou após o casal sofrer ofensas homofóbicas de um folião enquanto dançava atrás de um trio elétrico.
“Quando estávamos dançando atrás do trio do Papazoni, eu e meu esposo abraçados, fomos delimitados por diversas ofensas homofóbicas por um folião que estava atrás da gente”, relatou.
Segundo João, a situação foi percebida pela esposa do amigo do casal, que também é policial militar. Ela respondeu ao homem com um gesto obsceno, o que teria provocado uma discussão.
“O rapaz a xingou e o meu amigo foi perguntar o motivo, sem procurar problema e sem entrar em vias de fatos. Nesse momento, chegaram outras três pessoas que estavam com o homem para tentar resolver a situação”.
De acordo com o professor, a guarnição 1007 do Batalhão de Patrulhamento Tático Móvel da Polícia Militar (BPATAMO) chegou ao local e teria agido com truculência. Ele afirma que foi agredido com quatro golpes de cassetete, sendo atingido nas costas, na região do tórax e ao lado do peito.
João Cruz contou ainda que o marido e o colega se identificaram como policiais militares, mas, mesmo assim, foram agredidos. O amigo do casal sofreu lesões no rosto e, devido à gravidade dos ferimentos, foi levado para o Hospital Geral do Estado (HGE). Ele passou por cirurgia na manhã de quarta-feira (18) e permanece internado nesta quinta-feira (19).
“Meu colega foi agredido com dois golpes de cassetetes no rosto, que chegou a causar um ferimento na testa, levando seis pontos”.
O professor afirmou que o policial também recebeu três pontos na gengiva e sofreu dois edemas do lado direito do rosto.
“Ele se recupera bem, mas precisou fazer uma cirurgia no maxilar para reconstruir, porque a lesão foi muito ostensiva”.
Ainda segundo João Cruz, ele, o marido e o colega não foram encaminhados para atendimento médico, mesmo apresentando sangramentos e dores. Posteriormente, conforme o relato, a guarnição de prefixo 1425, formada por oficiais auxiliares da Polícia Militar, chegou ao local e o conduziu para um posto da corporação.
“Fui imobilizado por um aluno-soldado, com muita força, sem eu oferecer resistência alguma. Falei que meu braço estava doendo e pedi para ele afrouxar. Ele falou: ‘Cala boca, seu veado, você ainda não viu o que é violência’”.
“Eu fiquei extremamente nervoso e quando eu fico assim, costumo mexer no meu cabelo. Nesse momento, ele disse: ‘Ainda fica mexendo nessa desgraça de cabelo’. Meu gesto de nervosismo irritou ele”, relatou.
João Cruz contou que tentou gravar a situação com o celular. Segundo ele, o vídeo durou cerca de 15 minutos e foi encerrado após uma aluna-soldado tomar o aparelho de sua mão.
“Eu falei: ‘Senhora, devolva meu celular. Eu tenho direito de gravar, o celular é meu’. Eles não me devolveram e solicitaram que eu desbloqueasse o aparelho, mas não fiz isso”.
Diante das denúncias, a Justiça determinou a abertura de investigação para apurar possíveis excessos na ação policial e decidiu pelo afastamento cautelar dos quatro PMs envolvidos — o soldado detido durante a ação e outros três militares das patrulhas 1425 e Patamo 1007.
Em nota, a Polícia Militar apresentou versão diferente da relatada pelas vítimas. A corporação informou que os agentes intervieram para conter uma briga generalizada no local e que, durante a ação, um dos envolvidos — já ferido em razão das agressões entre os participantes — se identificou como policial militar.
De acordo com a PM, os policiais separaram os envolvidos, isolaram a área e conduziram os feridos para atendimento médico. A corporação afirmou ainda que, durante a ocorrência, “outro policial militar que se encontrava de folga e também participava da confusão apresentou comportamento exaltado e desrespeitoso, sendo conduzido ao posto de comando para adoção das medidas cabíveis, inclusive quanto à apuração de eventual crime militar”.
Em relação às denúncias de abordagem truculenta, insultos homofóbicos e retenção de celular, a PM informou que todos os fatos serão “rigorosamente apurados”. Sobre o afastamento, a instituição declarou que cumpre integralmente a decisão judicial e que a Corregedoria instaurou os procedimentos administrativos disciplinares cabíveis.
A Polícia Militar da Bahia afirmou ainda que seus integrantes são capacitados para atuar com técnica, equilíbrio e observância rigorosa dos protocolos operacionais, pautando suas ações na legalidade, no uso proporcional da força e no respeito aos direitos e garantias fundamentais, não compactuando com condutas discriminatórias ou incompatíveis com a ética profissional.
Fonte: MR
